28/08/2007

raízes

Alimenta-se de estrelas porque dói
a quem provou a luz ficar no chão
Mas a terra reclama as raízes do ser
e, esperando florir antes que acabe o dia
lança o coração ao pó, mal amanhece

29/06/2007

depois

Depois
do cheiro doce dos cavalos
e depois
do sol beijar a sombra
das nogueiras
e depois
dos corpos se encontrarem
junto ao verão
depois disso não faz falta
mais nenhum lugar na mesa
nem nos olhos
dos pardais

minimal

Empurrado pelo vento
um grão de areia escorregou
pedra abaixo até à base
anichando-se aí, perfeitamente,
entre uma flor de cardo e
uma gota de água:
na luz fria do inverno
o universo fremiu
e aconchegou-se

26/06/2007

pouca coisa

Sob a pele dos dias
sopesados do pensar
alguns entes se sentavam
em tua mesa

Alguns deles se traziam
outros só se acolhiam mas
para quem estava havia
sempre pão e vinho, a
fruta baça do campo e
algum brilho de olhos
entendidos

Não era muito, mas
por pouco se gostavam e
bebiam dos seus copos aos
presentes

Pouca coisa que
aquecesse assim a noite
em tua casa, nada como
o porquê do mal
do mundo ou que sexo
tem um anjo

19/06/2007

pós-humano

Transformado em dia
pelo verbo
fatigados os olhos, mas abertos
para o ser,
pensou-se quedo, quis-se
nú, fez-se
distante...
A luz
cresceu-lhe, esvaíu-se-lhe
a forma.
Cada vez mais astral
já quase não recorda
que foi homem

24/05/2007

convite



O livro "dovoar", editado pela Pé de Página, será apresentado no dia 9 de Junho, Sábado, pelas 17 horas, no belíssimo Museu da Patriarcal-Reservatório de Água, situado no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.
Rui Grácio, responsável editorial da Pé de Página, fará a sua apresentação ao público. Depois serão (muito bem) lidos poemas do autor por Glória de Sousa e Licínia Quitério.
Também acontecerão coisas que nem o poeta sabe, porque elas fazem segredo.
Os amantes de poesia estão, todos, convidados.

21/05/2007

águas lusas

Também tens
nos rins o mesmo
sabor acre da
terra que bebes na
água branca das
fontes do teu país

E também tens
nos ossos e no
sangue as mesmas
marcas do correr
dos rios entre as
margens de um
fado que descrê
de ser cantado

E tens ainda
atado ao ventre o
mesmo fim, o mesmo
mar da costa
inconquistável da
vontade de cumprir na
cara dos teus filhos, as
lágrimas da paz de
acontecer um povo

03/05/2007

a falha do destino

Por vezes a razão das
sombras é tão concreta
que escurece até o
querer dos próprios
passos

Por vezes não se pode
ser mais que um ponto
no vazio, um respirar
contra vontade o
gume de uma dor
que pode ser

Por vezes, todos os
caminhos se transformam
em escarpas, uns, os outros
em abismos e a falha
traiçoeira do destino
não deixa hoje acreditar
nas armas que amanhã
empunharemos

20/04/2007

as mãos de cada dia

Os olhos de ver a luz
querem-se largos
e limpos.

Grandes e poderosas
devem ser as asas de
ganhar o céu.

As mãos são mãos de
tanta coisa que não
se podem ter de uma
maneira; são precisas
outras mãos em
cada dia

celebração dos gestos

O que celebras hoje de
importante? Sim o que
celebras hoje, para além
da medida em que não
cabe a metade da luz
do horizonte ?

O que celebras? Porquê
o gesto em festa, o tropel
do sangue pelas veias, o
grito dos nervos na ânsia
da explosão?

O que celebras? Difícil de
dizer, sabemos. Talvez
que só a luz enquanto
te ilumina, talvez
a simples sintonia do
corpo com o gesto,
talvez o gesto, em si,
de celebrar

08/02/2007

partidas

Os que partem aos que ainda vão partir
deixam velhos trapos estendidos,
na deserta mesa das conversas.
O ar escorrendo no silêncio
das paredes tão pouco se demora

27/11/2006

explicação da poesia

- Pai, o que são versos ?
- Versos, minha luz, são palavras voltadas ao sentir

- E, pai, o que são poemas ?
- Poemas, fresca face, são alguns versos com sentidos fundos

- Mas pai, e o que é a poesia ?
- Poesia, olhos limpos, é a forma dos poetas abraçarem as pessoas

- Pai, e pode abraçar-se um poeta ?
- Sim, pura fronte, buscando nos seus versos o sentido do poema;
dizendo, quando possas, o sentir da poesia

08/11/2006

adágio

I
No centro do Outono o
nevoeiro pesa no negro do
silêncio. A terra dorme o
sono das madres
aconchegando ao
manto do seu ventre o
fundo mudo da encosta

II
Buscando erguer-se nas
árvores presas ao húmido
da noite, o ar deitado
na terra restolha rente
ao chão. Respira aí
um pouco e sobe devagar os
troncos escuros, aspirando
já aos ramos altos
sobre si

III
Um homem nú estremece
no gume dos sentidos,
a música do mundo
ganhando a curva
das costelas. Sem
perguntas a fronte
inverte a luz do olhar e
mansamente espera
a madrugada

09/10/2006

a forma do teu nome

Importa muito a dimensão do sonho
à dimensão do homem, mas é
nos dentes cerrados na vontade
de o saber e é no braço dolorido
de o forçar a se manter e é no sangue
rubro da paixão de conquistá-lo,
que podes no futuro contar histórias
de como o sonho quase nunca se alcançava
e mesmo assim o ar que respiravas
bordava a fogo a forma do teu nome

13/09/2006

dos cavalos

Vêm na alva os cavalos luminosos
pedir-te adoração,pois que são deuses.
Olham-te nos olhos do passado sem
memória, amam-te no salto do agora
que é todo o seu futuro. Olham-te e
amam-te, os teus cavalos livres. Na
pedra de um altar virado aos astros
tu e os deuses falam do galope
das almas dos cavalos e dos homens

05/09/2006

outros olhos

Há outros olhos,
sabes que há outros
olhos e hás-de procurá-los
sempre na combustão dos
astros, ou nos botões
das rosas. até à última
chama ou á primeira
pétala

04/09/2006

aí estás

Aí estás
simples como as ervas, leve como
o pó que levam os teus passos
no caminho

Aí estás
os olhos outra vez sentados
no difícil miradouro das almas
procurando a luz de cada uma
e em cada luz a tua luz
entrelaçada

Aí estás
e os gestos e as palavras de amanhã
esperam contigo o arfar breve
do Outono na folhagem das árvores
de Setembro

19/07/2006

mais verão

Chove. Mas é mais verão
no cheiro quente da terra.
De joelhos na turfa, beijas
o vapor da volúpia. A saia
molhada da tarde diz
que estão prontas
as espáduas das searas

vida real

Camões de espada ao
peito, Bocage rufião e tu,
Eugénio, voando o que não
sonham as pessoas que te
pensam sonhador

outra noite

Como pode a noite ser,
no lugar onde te encontras,
outra coisa que não noite ?
E beijando a sua sombra
com candeias de luz forte,
como pode anoitecer ?