03/03/2009

paragem ao luar

Vem o poema no compasso do galope
deslizando nos ares altos do cavalo
de cristal. Corpos elásticos andam
por direito em comunhão de esforço
até ao zénite em que cessa o
movimento. Tu respiras, o cavalo
resfolega e há um momento de
paz pura no silêncio da paragem
ao luar

entre os olhos e a nuca

Era de noite quando anoiteciam
as mãos esquecidas sobre o surdo
som do ventre. Entre os olhos e a
nuca resistiam ao cansaço e
diziam poesia como se
esconjurassem espíritos

25/02/2008

a medida do humano

De tantas formas quantas
ervas há no chão, uma
vida vale como se
quiser, essa é a verdade
nua que precisa ser
pesada na balança do
sentido

Ainda assim, quando
lavras nas palavras do
poema a emoção do
belo na essência do
sinal , ainda assim,
dizia, pode ser que tu e o
poeta se comunguem
no êxtase de crescer a
medida do humano.

19/02/2008

Outros "sinais de poesia"


Para quem ainda não viu, a última oportunidade de ver Glória de Sousa e Licínia Quitério brilhando a grande altura. Para quem já viu, vale a pena o reencontro. Até lá!

30/01/2008

enquanto

Passam rápidos clarões de
culpa e glória, no esquivo
reencontro dos nervos com o
sangue, enquanto a sua boca
ferve noutra boca

24/01/2008

fonte de luz

São poucas as palavras que conheço
e o meu mundo cabe numa gota de água;
mas do que sei, sei o que vais ser,
e como vais ficar em nós, por dentro
das crianças que também são tuas:
Uma fonte de luz que mostra os lados
por onde se descobre outro crescer

17/01/2008

queda livre

Tanta coisa à flor da boca transbordando
no corpo que se faz de amanhecer.
Vê como é: ave no gume do éter
Vê como vai : vertical em queda livre

04/12/2007

30/10/2007

"sinais de poesia"


Glória de Sousa e Licinia Quitério vão dizer Vasco Pontes na Casa Fernando Pessoa, no dia 15 de Novembro, às 19H00. O poeta, naturalmente, estará presente, aguardando quantos outros quiserem e puderem ir. Até lá!

26/10/2007

nada mais

Uma palavra presa aos dentes
impossível de dizer. Uns lábios
meio abertos cheios de sede e
de silêncio. No fundo do
estômago a surda implosão
de um soluço. E nada mais
E nada mais

25/09/2007

marcas de água

Pedra sobre pedra, sobre o sal
do corpo. Colunas, muros
castelos, testemunhos
marcas de água

28/08/2007

raízes

Alimenta-se de estrelas porque dói
a quem provou a luz ficar no chão
Mas a terra reclama as raízes do ser
e, esperando florir antes que acabe o dia
lança o coração ao pó, mal amanhece

29/06/2007

depois

Depois
do cheiro doce dos cavalos
e depois
do sol beijar a sombra
das nogueiras
e depois
dos corpos se encontrarem
junto ao verão
depois disso não faz falta
mais nenhum lugar na mesa
nem nos olhos
dos pardais

minimal

Empurrado pelo vento
um grão de areia escorregou
pedra abaixo até à base
anichando-se aí, perfeitamente,
entre uma flor de cardo e
uma gota de água:
na luz fria do inverno
o universo fremiu
e aconchegou-se

26/06/2007

pouca coisa

Sob a pele dos dias
sopesados do pensar
alguns entes se sentavam
em tua mesa

Alguns deles se traziam
outros só se acolhiam mas
para quem estava havia
sempre pão e vinho, a
fruta baça do campo e
algum brilho de olhos
entendidos

Não era muito, mas
por pouco se gostavam e
bebiam dos seus copos aos
presentes

Pouca coisa que
aquecesse assim a noite
em tua casa, nada como
o porquê do mal
do mundo ou que sexo
tem um anjo

19/06/2007

pós-humano

Transformado em dia
pelo verbo
fatigados os olhos, mas abertos
para o ser,
pensou-se quedo, quis-se
nú, fez-se
distante...
A luz
cresceu-lhe, esvaíu-se-lhe
a forma.
Cada vez mais astral
já quase não recorda
que foi homem

24/05/2007

convite



O livro "dovoar", editado pela Pé de Página, será apresentado no dia 9 de Junho, Sábado, pelas 17 horas, no belíssimo Museu da Patriarcal-Reservatório de Água, situado no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.
Rui Grácio, responsável editorial da Pé de Página, fará a sua apresentação ao público. Depois serão (muito bem) lidos poemas do autor por Glória de Sousa e Licínia Quitério.
Também acontecerão coisas que nem o poeta sabe, porque elas fazem segredo.
Os amantes de poesia estão, todos, convidados.

21/05/2007

águas lusas

Também tens
nos rins o mesmo
sabor acre da
terra que bebes na
água branca das
fontes do teu país

E também tens
nos ossos e no
sangue as mesmas
marcas do correr
dos rios entre as
margens de um
fado que descrê
de ser cantado

E tens ainda
atado ao ventre o
mesmo fim, o mesmo
mar da costa
inconquistável da
vontade de cumprir na
cara dos teus filhos, as
lágrimas da paz de
acontecer um povo

03/05/2007

a falha do destino

Por vezes a razão das
sombras é tão concreta
que escurece até o
querer dos próprios
passos

Por vezes não se pode
ser mais que um ponto
no vazio, um respirar
contra vontade o
gume de uma dor
que pode ser

Por vezes, todos os
caminhos se transformam
em escarpas, uns, os outros
em abismos e a falha
traiçoeira do destino
não deixa hoje acreditar
nas armas que amanhã
empunharemos

20/04/2007

as mãos de cada dia

Os olhos de ver a luz
querem-se largos
e limpos.

Grandes e poderosas
devem ser as asas de
ganhar o céu.

As mãos são mãos de
tanta coisa que não
se podem ter de uma
maneira; são precisas
outras mãos em
cada dia