12/09/2017

da navegação dos astros



Deitou os rins na água escura, descaiu a espinha e
flutuou. No zénite de um marulho, abriu os olhos e
deixou que neles navegassem as estrelas

26/02/2017

da fala




Ouve os sons da tua alma
deixa fluir a música das
palavras que tão bem te
conhecem e tanto
te definem. Sente
como pairam sob o sol e
sobre o mar, como se
enlaçam em afagos e
em festas as palavras
portuguesas. Digam
o que disserem,dizem
tudo de ti, essas
luzentes  palavras
conformadas ao teu
ser




03/02/2017

despedida



Imóveis no restolho, os 
teus cavalos choram. As 
suas lágrimas embebem-se
no pó de alguns sonhos
mal vencidos. Virados
contra o vento os teus
cavalos choram por ti, que
já não estás, mas não
sabes como ir. Ávidos de
ânimo os teus cavalos
choram-te no peito onde
escondem as orelhas e
a vergonha
de chorar

perfume



Cansado dos dias áridos
o Verão parte de noite sem dizer que
se foi.  Ficam por ele as contas de
orvalho nas coxas expectantes
da terra sequiosa. O Outono
chega no seu andar de gato
e sonda no ar o odor da fêmea
plena. Num breve arrepio, ela
se entrega sem remorso a
esse  amor mais frio

06/02/2015

garças



De repente uma brisa, um golpe de mar.
Era  então um olhar noutro olhar
enleado, duas garças respirando
o vidro frio do ar. (A sede de cada
uma difícil de saciar). Depois uma
reviveu, ou  seja, voltou a ser,  a
outra se foi embora, ferida de pouca
fé. Uma delas chorou seco, a outra
não sei dizer