06/02/2015

garças



De repente uma brisa, um golpe de mar.
Era  então um olhar noutro olhar
enleado, duas garças respirando
o vidro frio do ar. (A sede de cada
uma difícil de saciar). Depois uma
reviveu, ou  seja, voltou a ser,  a
outra se foi embora, ferida de pouca
fé. Uma delas chorou seco, a outra
não sei dizer

16/01/2014

ser-se

Um velho voltou hoje ao mar profundo,
o corpo torto mas a fronte de osso
agudo. Era o que era,  pouco o que
pedia: um peixe de sal, uma côdea de
pão, uma enxerga, uma telha, ver a lua
na noite, ver o dia nascer e dar a mão
ao mar e dar a mão ao mar até morrer

boa morte

A chama esvai-se em brasa na lareira
a luz fraqueja e deixa de luzir
descai a cara no encosto da cadeira
podíamos morrer mas basta-nos dormir

cardo em flor

Num ponto do espaço
centrado no nada, a
milhões de anos luz de
coisa nenhuma, pleno
de si e de silêncio
brilha um belo
cardo em flor

09/12/2011

alma ao espelho

Firmava o corpo, em atenção. Percorria
o pormenor de cada ruga da fronte, de
cada linha do rosto, de cada curva
do sorriso

Era bela a sua face, mas não
buscava já essa beleza. No fundo
do olhar mirava o espelho de
uma alma em que cria
reflectir-se

27/09/2011

terra nossa

Terra de pó seco
de caminhos estéreis
e braços dolentes
Terra de pedras ásperas
inimigas do pisar
Terra de sofrimento
envergonhado, de
angústias escondidas
aos olhos dos filhos
Terra de facas e
cardos,essa
que lhe doía

21/09/2011

regresso

Um meio fado nos lábios
e outro meio em conjura
Ser e não ser daqui, mas
não poder ser doutro lado
Reconhecer num rosto do
passado os traços jovens
do velho que regressa

06/05/2010

primavera

Chegaram as andorinhas
negras mais negras do que
negras eram antes

à sombra

Côdea de pão em azeite
na calidez de uma sombra
suada no Alentejo

gaivotas

Seus olhos viram o mar
como o mar era de dia
seus olhos eram gaivotas

24/03/2010

não era bem

Não era bem a seda do falar, como
não era bem o seu poisar de olhos
circunstantes. Seria, porventura
mais o gesto, o voo dos dedos, a
forma como guardava o espaço
na cova leve das mãos. Doutra
maneira, como retinha a luz em
seu redor, ou seja ainda, o seu
modo tão seu de existir. Num
lugar morno imune ao tempo havia
risos, festas e puríssimas
palavras

22/02/2010

da luz dos vaga-lumes

Contar por versos o que eram
quase Verão, as noites de
Azedia. A Casa perto e
longe, a ribeira discreta
no fundo dos caniços. Era
altura da luz dos vaga-lumes
espelhada no encanto dos
olhos das crianças. Os cavalos
há muito que sabiam das
silentes sinfonias luminosas, mas
um poldro galopava um frenesi
à flor da erva e sorrisos
clareados de inocência acenavam
às estrelas um sinal de
entendimento

por ser tão dia

Por ser manhã, talvez
talvez por já ser dia
abria o coração à breve
luz de Abril. No regaço
de si mesmo prometia
um olhar claro ao que
era no porvir. Talvez
por ser manhã, talvez
por ser tão dia

30/12/2009

pequena luz

Naturalmente nú
acendeu na casa uma fogueira
De pele chegada ao lume
arrependeu-se de cada
pecado, de cada
mal feito, de cada
bem desperdiçado. Não
era ainda altura do
perdão,saíu, assim, para
o inverno,o passo
incerto, uma pequena
luz nos nós dos dedos

15/05/2009

o pó dos astros

De terra e de não terra são os ossos
de carne e de não carne o pensamento
o mesmo rosto às vezes, às vezes outra
cara, fortes e fracos, presos e libertos:
Assim somos, de tudo e nada feitos
e feitos, mesmo assim, do pó dos astros

03/03/2009

paragem ao luar

Vem o poema no compasso do galope
deslizando nos ares altos do cavalo
de cristal. Corpos elásticos andam
por direito em comunhão de esforço
até ao zénite em que cessa o
movimento. Tu respiras, o cavalo
resfolega e há um momento de
paz pura no silêncio da paragem
ao luar

entre os olhos e a nuca

Era de noite quando anoiteciam
as mãos esquecidas sobre o surdo
som do ventre. Entre os olhos e a
nuca resistiam ao cansaço e
diziam poesia como se
esconjurassem espíritos

25/02/2008

a medida do humano

De tantas formas quantas
ervas há no chão, uma
vida vale como se
quiser, essa é a verdade
nua que precisa ser
pesada na balança do
sentido

Ainda assim, quando
lavras nas palavras do
poema a emoção do
belo na essência do
sinal , ainda assim,
dizia, pode ser que tu e o
poeta se comunguem
no êxtase de crescer a
medida do humano.

19/02/2008

Outros "sinais de poesia"


Para quem ainda não viu, a última oportunidade de ver Glória de Sousa e Licínia Quitério brilhando a grande altura. Para quem já viu, vale a pena o reencontro. Até lá!

30/01/2008

enquanto

Passam rápidos clarões de
culpa e glória, no esquivo
reencontro dos nervos com o
sangue, enquanto a sua boca
ferve noutra boca

24/01/2008

fonte de luz

São poucas as palavras que conheço
e o meu mundo cabe numa gota de água;
mas do que sei, sei o que vais ser,
e como vais ficar em nós, por dentro
das crianças que também são tuas:
Uma fonte de luz que mostra os lados
por onde se descobre outro crescer

17/01/2008

queda livre

Tanta coisa à flor da boca transbordando
no corpo que se faz de amanhecer.
Vê como é: ave no gume do éter
Vê como vai : vertical em queda livre

04/12/2007

30/10/2007

"sinais de poesia"


Glória de Sousa e Licinia Quitério vão dizer Vasco Pontes na Casa Fernando Pessoa, no dia 15 de Novembro, às 19H00. O poeta, naturalmente, estará presente, aguardando quantos outros quiserem e puderem ir. Até lá!

26/10/2007

nada mais

Uma palavra presa aos dentes
impossível de dizer. Uns lábios
meio abertos cheios de sede e
de silêncio. No fundo do
estômago a surda implosão
de um soluço. E nada mais
E nada mais

25/09/2007

marcas de água

Pedra sobre pedra, sobre o sal
do corpo. Colunas, muros
castelos, testemunhos
marcas de água

28/08/2007

raízes

Alimenta-se de estrelas porque dói
a quem provou a luz ficar no chão
Mas a terra reclama as raízes do ser
e, esperando florir antes que acabe o dia
lança o coração ao pó, mal amanhece

29/06/2007

depois

Depois
do cheiro doce dos cavalos
e depois
do sol beijar a sombra
das nogueiras
e depois
dos corpos se encontrarem
junto ao verão
depois disso não faz falta
mais nenhum lugar na mesa
nem nos olhos
dos pardais

minimal

Empurrado pelo vento
um grão de areia escorregou
pedra abaixo até à base
anichando-se aí, perfeitamente,
entre uma flor de cardo e
uma gota de água:
na luz fria do inverno
o universo fremiu
e aconchegou-se

26/06/2007

pouca coisa

Sob a pele dos dias
sopesados do pensar
alguns entes se sentavam
em tua mesa

Alguns deles se traziam
outros só se acolhiam mas
para quem estava havia
sempre pão e vinho, a
fruta baça do campo e
algum brilho de olhos
entendidos

Não era muito, mas
por pouco se gostavam e
bebiam dos seus copos aos
presentes

Pouca coisa que
aquecesse assim a noite
em tua casa, nada como
o porquê do mal
do mundo ou que sexo
tem um anjo

19/06/2007

pós-humano

Transformado em dia
pelo verbo
fatigados os olhos, mas abertos
para o ser,
pensou-se quedo, quis-se
nú, fez-se
distante...
A luz
cresceu-lhe, esvaíu-se-lhe
a forma.
Cada vez mais astral
já quase não recorda
que foi homem

24/05/2007

convite



O livro "dovoar", editado pela Pé de Página, será apresentado no dia 9 de Junho, Sábado, pelas 17 horas, no belíssimo Museu da Patriarcal-Reservatório de Água, situado no Jardim do Príncipe Real, em Lisboa.
Rui Grácio, responsável editorial da Pé de Página, fará a sua apresentação ao público. Depois serão (muito bem) lidos poemas do autor por Glória de Sousa e Licínia Quitério.
Também acontecerão coisas que nem o poeta sabe, porque elas fazem segredo.
Os amantes de poesia estão, todos, convidados.

21/05/2007

águas lusas

Também tens
nos rins o mesmo
sabor acre da
terra que bebes na
água branca das
fontes do teu país

E também tens
nos ossos e no
sangue as mesmas
marcas do correr
dos rios entre as
margens de um
fado que descrê
de ser cantado

E tens ainda
atado ao ventre o
mesmo fim, o mesmo
mar da costa
inconquistável da
vontade de cumprir na
cara dos teus filhos, as
lágrimas da paz de
acontecer um povo

03/05/2007

a falha do destino

Por vezes a razão das
sombras é tão concreta
que escurece até o
querer dos próprios
passos

Por vezes não se pode
ser mais que um ponto
no vazio, um respirar
contra vontade o
gume de uma dor
que pode ser

Por vezes, todos os
caminhos se transformam
em escarpas, uns, os outros
em abismos e a falha
traiçoeira do destino
não deixa hoje acreditar
nas armas que amanhã
empunharemos

20/04/2007

as mãos de cada dia

Os olhos de ver a luz
querem-se largos
e limpos.

Grandes e poderosas
devem ser as asas de
ganhar o céu.

As mãos são mãos de
tanta coisa que não
se podem ter de uma
maneira; são precisas
outras mãos em
cada dia

celebração dos gestos

O que celebras hoje de
importante? Sim o que
celebras hoje, para além
da medida em que não
cabe a metade da luz
do horizonte ?

O que celebras? Porquê
o gesto em festa, o tropel
do sangue pelas veias, o
grito dos nervos na ânsia
da explosão?

O que celebras? Difícil de
dizer, sabemos. Talvez
que só a luz enquanto
te ilumina, talvez
a simples sintonia do
corpo com o gesto,
talvez o gesto, em si,
de celebrar

08/02/2007

partidas

Os que partem aos que ainda vão partir
deixam velhos trapos estendidos,
na deserta mesa das conversas.
O ar escorrendo no silêncio
das paredes tão pouco se demora

27/11/2006

explicação da poesia

- Pai, o que são versos ?
- Versos, minha luz, são palavras voltadas ao sentir

- E, pai, o que são poemas ?
- Poemas, fresca face, são alguns versos com sentidos fundos

- Mas pai, e o que é a poesia ?
- Poesia, olhos limpos, é a forma dos poetas abraçarem as pessoas

- Pai, e pode abraçar-se um poeta ?
- Sim, pura fronte, buscando nos seus versos o sentido do poema;
dizendo, quando possas, o sentir da poesia

08/11/2006

adágio

I
No centro do Outono o
nevoeiro pesa no negro do
silêncio. A terra dorme o
sono das madres
aconchegando ao
manto do seu ventre o
fundo mudo da encosta

II
Buscando erguer-se nas
árvores presas ao húmido
da noite, o ar deitado
na terra restolha rente
ao chão. Respira aí
um pouco e sobe devagar os
troncos escuros, aspirando
já aos ramos altos
sobre si

III
Um homem nú estremece
no gume dos sentidos,
a música do mundo
ganhando a curva
das costelas. Sem
perguntas a fronte
inverte a luz do olhar e
mansamente espera
a madrugada

09/10/2006

a forma do teu nome

Importa muito a dimensão do sonho
à dimensão do homem, mas é
nos dentes cerrados na vontade
de o saber e é no braço dolorido
de o forçar a se manter e é no sangue
rubro da paixão de conquistá-lo,
que podes no futuro contar histórias
de como o sonho quase nunca se alcançava
e mesmo assim o ar que respiravas
bordava a fogo a forma do teu nome

13/09/2006

dos cavalos

Vêm na alva os cavalos luminosos
pedir-te adoração,pois que são deuses.
Olham-te nos olhos do passado sem
memória, amam-te no salto do agora
que é todo o seu futuro. Olham-te e
amam-te, os teus cavalos livres. Na
pedra de um altar virado aos astros
tu e os deuses falam do galope
das almas dos cavalos e dos homens

05/09/2006

outros olhos

Há outros olhos,
sabes que há outros
olhos e hás-de procurá-los
sempre na combustão dos
astros, ou nos botões
das rosas. até à última
chama ou á primeira
pétala

04/09/2006

aí estás

Aí estás
simples como as ervas, leve como
o pó que levam os teus passos
no caminho

Aí estás
os olhos outra vez sentados
no difícil miradouro das almas
procurando a luz de cada uma
e em cada luz a tua luz
entrelaçada

Aí estás
e os gestos e as palavras de amanhã
esperam contigo o arfar breve
do Outono na folhagem das árvores
de Setembro

19/07/2006

mais verão

Chove. Mas é mais verão
no cheiro quente da terra.
De joelhos na turfa, beijas
o vapor da volúpia. A saia
molhada da tarde diz
que estão prontas
as espáduas das searas

vida real

Camões de espada ao
peito, Bocage rufião e tu,
Eugénio, voando o que não
sonham as pessoas que te
pensam sonhador

outra noite

Como pode a noite ser,
no lugar onde te encontras,
outra coisa que não noite ?
E beijando a sua sombra
com candeias de luz forte,
como pode anoitecer ?

13/07/2006

outro português

Sardinha no pão, caneca de vinho,
batatas com pele, azeite e
vinagre,um dia de verão
e salada de alface

português

As cigarras não são fáceis de
explicar; explicar as oliveiras
impensável. Porque choras
quando Amália canta o fado
nem tu sabes muito bem

22/06/2006

saudades da tristeza

Agora tudo é triste no teu mundo
e não há mundo que te mude o sentimento;
nada vês além das lágrimas, nem o ombro
onde choras, nem as mãos beijando-te
os cabelos, nem os dedos pacientes
sorrindo nos teus olhos magoados.

Há-de ser noutro dia que a saudade
de estar triste vai brilhar na tua face

19/06/2006

à sombra dos cavalos

Chegam notícias tristes da cidade,
tristes como soem desejar-se.
Teus dedos estancam, perdem viço
os movimentos, mas falta o tempo
para entristecer: de volta à brincadeira
renascem gargalhadas na garganta e
deixas-te outra vez levar, os braços
largos, um grande peito aberto,
tu e as ervas, à sombra do cavalos
um filho no pescoço, outro no colo

coração alado

Abrir as asas na curva da montanha,
ver do ar a pouca dimensão do homem,
mas ver que o homem voa quando quer.
Olhar ao lado outros seres voando
em rotas paralelas, divergentes, ou
contrárias: sorrir um toque de asa
a um irmão chegado e dar o corpo
ao vento, fremir no voo, sentir
no peito o coração alado, o
prenúncio etéreo de um começo astral

02/06/2006

o lugar dos signos

Há um lugar escondido na cidade
onde alguns seres revelam os seus signos;
vêm na alva, procuram toda a gente,
entram no dia, dizem os seus fados,
hora por hora esperam-se na tarde,
insistem no crepúsculo em chamar,
e vão-se embora à noite,
anoitecidos

31/05/2006

a luz do olhar

Na condição de ter uma luz sua
e de salgar a fonte do voar
nem o sol lhe despe a maresia
nem o mar lhe rouba o brilho
do olhar

30/05/2006

o homem de papel

Acorda de manhã,
o homem de papel,
de papel branco,
em branco respirar

sonha em caminhar,
o homem de papel,
de papel branco,
vincado de sinais

mas como não tem cor,
o homem de papel,
de papel branco,
marca de branco o ar

18/05/2006

campo pequeno

Os golpes das espadas
farpeadas
nas espáduas do boi
inocente.
O aço crú cravado
na carne, a ferida
injusta, fresca,
rasgada, o sofrimento
vão.
O ardor da carne,
nas chagas todas
inocentes...
O sangue. O sangue
quente, o sangue
puro, o sagrado
sangue
imolado à multidão
sôfrega.
A arte, claro,
os artistas
da morte

10/05/2006

da vontade da luz

São de festa os seus gestos corpo
adentro e há cantigas que só soam
quando a dois. No despontar do Verão,
brincam palavras com palavras enleadas
na vontade da luz em se florir

03/05/2006

recomeço

Começar de novo não
é difícil, difícil é
recomeçar

02/05/2006

força

O peso do mundo nos ombros,
aceita-o agora, só por um momento.
Por um instante sente-te sozinho,
deixa que doa, lamenta
teres caído. E agora basta:
deixa o suspiro a meio, engole
o cuspo seco. Levanta-te e anda,
perdoa-te e volta ao caminho.
Vê o que vales: não é fraco quem
fraqueja mas quem
fica no chão.

19/04/2006

lembrança

Dos corpos só restara uma lembrança
diluída em brumas espectrais;
parecia de sede, talvez fosse de gestos
mas era tão amena que a julgaram irreal

17/04/2006

mais um beijo

Deixas o corpo amolecer um pouco,
cansado que já estava de lutar por ti.
Respiras o ar sem dúvidas: sabes
que o mereceste. Tranquilamente,
adoças as mãos nos olhos e no teu colo
aqueces um pouco o mundo conturbado.
Uma canção esquecida vem junto a ti,
a espaços, relembrar-te o rio da memória.
Não podes pedir mais. Agradeces só
por mais um pôr do sol, por mais um beijo
na brisa madura dos teus cabelos soltos.

12/04/2006

beijar o lume

Viver-te o corpo como quem beija o lume
roçar nele a boca, fremir e tomá-lo
ficar porque se quer e não se quer
mais nada

apesar de voltar

Iremos outra vez; iremos
mesmo rasgando os pés pelos penedos

Iremos outra vez; e outra
até provarmos todo o sal do mar

Iremos outra vez; e outra; e outra
até sabermos quais os seus segredos

Iremos outra vez; iremos sempre
até esgotar-se a chama do olhar

Iremos, iremos. Apesar de voltar

21/03/2006

vida simples

Vendo bem, é pequenina a vida do poeta:
Pouco mais que o respirar dos seus poemas,
um ou outro beijo pressentido
e a luz que, quando a diz, muda de tom

20/03/2006

o caminhante

No meio das searas hesitava,
nos passos que fariam seu caminho.
Cerrava a fronte às vezes. Tacteava,
sondava a terra perguntando o norte.
Mas cada movimento que fazia
levantava no ar uma canção
e um horizonte novo em cada passo,
marcava nas espigas os seus olhos

17/03/2006

o pai

Todos os filhos em redor da
minha casa, sem condições
tomam meu rosto em suas mãos
pois tanto amo aqueles
para quem tudo é fácil,
como aqueles para quem
o fácil é difícil.
A todos amo, todos guardo
junto a mim, mas ponho mais
a minha mão sobre os que podem
menos e o meu coração alegra-se
com as suas pequenas vitórias

o legado

Chegou o tempo de deixar na pedra
alguns sinais de ti, mas não te iludas
nem as marcas fundas das palavras
nem o sangue das mãos no sulco
do cinzel podem dizer como eras o galope
dos cavalos, como as aves te voavam
junto a si, como as mãos que tinhas
abraçavam tanto mundo

16/03/2006

as amoras

As cigarras cantavam no Agosto
em que colhias amoras cor de vinho.
Tinham nelas o sabor da tarde,
as sérias amoras delicadas,
e davam-se devagar à luz do verão
há algum tempo posto no teu peito

14/03/2006

amigos

Viam-se melhor quando as manhãs
cristalizavam a luz do sol de Maio;
Via-se brincar aí, no espaço do sentir,
a diáfana matéria dos seus seres.
Aí se davam mãos, se tocavam as almas,
aí se riam ao provar dos frutos
que cada um, em dádiva, oferecia.

Os olhos de arco íris como a chuva
quando se dá ao sol, estremecida

06/02/2006

o poeta

Ele dorme nas searas encostado
ao nobre peito dos cavalos puros, no
conchego lento do seu bafo adocicado.

Nos seus sonhos há paisagens onde
os homens não conseguem pertencer,mas
o que recorda está marcado em pedra
cinzelada e tem na face os sinais fundos
das casas da cidade onde cresceu.

É para lá que apontam os seus braços,
quando devolve ao mundo, sublimadas,
as palavras que o mundo lhe ensinou

24/01/2006

dos retratos

Retratos são mentiras e verdades, sugeridas
ao correr dos olhos de quem quer olhar:

A menina que posa, não pode ser mentira,
quando dança sem dançar longos bailados
no palco brilhante dos olhos do seu pai;
a mulher que se expõe só pode ser verdade,
quando deixa a tristeza esvoar-se de dentro
e pintar nas nuvens o peso do chumbo.

Mas o ser no retrato não diz a menina
que brincou às bonecas antes de posar,
e não diz a mulher que se banhou nua
na lua de Março, não diz como riu,
se lavou da tristeza nesse riso de estrelas
e como, depois disso, foi jantar

13/01/2006

o dever

Hoje é o dia de olhar a criança
e de ver o homem que não querias ver;
é preciso, por isso, que lhe pegues na mão,
e o leves ao mar como a ti te levaram.
Leva-o e mostra-lhe as pregas do ar, o
calor do estio na tarde das aves e o longe
mais longe que pode o olhar. Mostra-lhe
a luz de lá e o cheiro das algas e
a dança do céu quando dança nas ondas.
Mostra-lhe e diz-lhe como gostar. Depois,
ouve com ele a canção de boas vindas,
que o sal da brisa vai trazer consigo e
sussurrar nos cabelos confiados
do teu filho

10/01/2006

quadro

Esvai-se a tarde morna em doce sono
a baixa mar embala o ar de leve
enfoscam-se de sombra os tons de Outono
anunciando a noite para breve.

No céu, a lua cheia está serena
e espera, recolhida, atrás dum monte.
O sol transmuda-se em vermelho; acena
à lua um beijo e beija o horizonte.

Tudo em redor se templa e se contém:
a prostituta abraça o seu amor,
o vagabundo pára e lembra a mãe...

e na praia sozinha, uma garota
enquanto ainda resta alguma cor
contempla, quietinha, uma gaivota

05/01/2006

a casa da montanha

Construíste na montanha a tua casa,
escondida a meia encosta, apartada
da cidade dos homens e distante
de todas as tuas outras casas.

É lá teu refúgio, é lá que guardas
o que mais vale em ti, o que mais prezas:
Farrapos de arco-íris, uns quantos raios
de luz, alguns cheiros da terra, do feno e
dos cavalos. Muitas danças: danças de
animais e homens, sinfonias de corpos, de
nervos e de músculos. Vários sons do ar
e canções de cristal encostadas a
um punhado de palavras plenas de sentidos.

É para aí que vais quando precisas
de fugir do mundo para te encontrares
contigo.Ai te bastas tu e o teu espírito e
o velho bordão de oliveira brava.

Aí te bastas; mas manténs a porta aberta
e muitos presentes preparados. De vez em quando,
lanças os olhos longe no caminho, esperas ouvir
os improváveis passos doutros caminheiros

29/12/2005

marinheiro

Leva o veleiro ao mar, leva o veleiro
Preso às tuas mãos sem rei
de quem possas, ainda,ser vassalo.
Leva o veleiro ao mar preso à vontade
de um marinheiro só, mas homem basto.
O destino nada te disse antes e pouco
agora te dirá: Tu marcas a viagem,dás o rumo,
apontas o lugar no horizonte.

Leva o veleiro ao mar. E vai com ele.
É lá que tens o sal, que vês o sol
e bebes água da que dá a chuva.
Podes levar contigo uma gaivota branca
E rente ao peito a cruz dos teus temores
- os dias no mar são longos,
faz falta alguma companhia -
mas faz-te agora ao mar, leva o veleiro
por sobre as grandes vagas, pela rota
que faz pequeno o barco e a ti grande.

Leva veleiro ao mar, ó marinheiro
Que o teu destino faz-se em navegar

28/12/2005

irmãos

Nasceu o poeta, que voem as aves
o voo mais belo, o voo mais suave;
o irmão aleijado tem choro de sol,
só lhe ouve o canto quem conhece a tarde,
quem sabe do mar é que lhe bebe as lágrimas

26/12/2005

mãe

PRÓLOGO
Sob os teus passos estou, densa, desperta.
Molhada das chuvas de Outono, como
depois de um banho longamente esperado.
I
Lavada, cheiro a ervas e a barro e
ao germe das sementes.
II
Grávida de toda a vida, sou
Mãe de todas as coisas. Mas
fremo já antecipando o abraço donde
germinarão as próximas gerações.
III
Na tarde madura, recebo ainda o
Sol na pele; não brilho, porque
todo o brilho é reflexo: recebo e
incorporo a luz, completamente.
IV
Nalguns lugares estão filhos meus
cantando, noutros canto eu por mim,
cantos de água, tons de vento, eternas
canções de ondas oceânicas.
V
Sob ti estou, molhada e funda. Tão
funda, que cabem em mim todas as
almas e o próprio mar se aninha
no meu colo.
EPÍLOGO
Sob ti estou, em mim caminhas. Afago
os teus passos com a pura adoração
da mãe que beija o filho após amamentar

19/07/2005

das sombras

A tua mente é jovem, sim, a tua mente é jovem
Ainda cavalga o sol, ainda freme
Com pouco mais que a feromónica
sugestão de um cheiro mar;
Mas pensas muito também só por pensar
e deixas-te ficar de noite, alerta
ao leve passo das sombras,
que até há pouco nem o teu nome sabiam,
e tão bem sabem agora como
te chamar

08/06/2005

outro corpo

Já sentes outro corpo que o de jovem
ardendo ainda, mas em fogo lento.
No ardor do corpo agora
sabes pausar o coração e
um beijo teu já não tem só um sentido,
tem todos os sentidos sentados no tocar.
Agora sabes rir e ris na boca
mas ris também em todo o outro corpo,
ris nos poros, nas espáduas, nas palavras
ris devagar, isso te deu o tempo
ou foste tu que lho roubaste, já não sei

ponto de chegada

Canoa nas ondas
virada à bolina
trigo manso, maduro
dobrado no vento.
Estás como sempre
onde podes estar
mas aqui é igual
ao que sempre quiseste
aqui finda um caminho:
Chegaste.
Por muito que teimes
em ti e no sol
por muito que teimes
no sol e no mundo
nem tu, nem o sol
e menos o mundo
podem ser algo mais
do que o frémito lento
o ser devagar,
a festa tranquila,
o cúmplice abraço
entre ti e o dia

pequenos pormenores

Uma das claras luminosidades
que te aclare a mão
ou se transforme em cor.
Precisas disso: um mar manso
de verão, uma fogueira de estrelas,
alguns sons casuais, quase de música.
Esses pequenos pormenores do ar
que te folgam dos caminhos tortos

17/04/2005

cansados da noite

Cansados da noite, os teus olhos ainda
estranham quase toda a luz do dia; por
pouco tempo, porém, agora mesmo,
um grande sol cor de rosa sobe num
céu claro de arco íris e
luz em nuvens amarelas embaladas
por um vento verde pálido. É tanta cor,
que as pupilas já não sabem como escurecer
e o corpo freme e brilha no compasso
de cada inspiração. É claro
que não podes levar contigo o dia todo, mas
tomas alguns fios no teu bolso e
lesto tornas à estrada, retemperado

14/04/2005

tanto que não querias

Tanto que não querias entardecer,
tanto que ficavas preso ao dia,
à luz, ao seu olhar;
Vais-te embora agora mesmo,
não era essa a tua casa e
não podias, não podias ficar;
mas os teus olhos vão brancos de sal
e as tuas mãos sozinhas
espasmam-se no ar, pedem ainda
um suspiro nos poros, um
respirar de pássaro nas
breves polpas dos dedos

04/04/2005

duas vezes o sol

Duas vezes o sol; uma
por o ser, outra
por aquela cor quase de sangue;
duas vezes olhá-lo, bebê-lo,
duas vezes

sucedâneo

Se temos que voar cegos
na escuridão imensa do sol nos olhos
seja então com asas de cigarra
e que o vento cheire a oliveira

segredos de ofício

Contra o que se pensa as palavras boas
não são muitas e as que há de tão
usadas ficam gastas e sem brilho.
Quem as quiser com as cintilações antigas
tem que esculpir as sílabas em línguas
do mais puro cristal, fundi-las em cores
claras muito límpidas, retemperá-las
em nascentes de água pura.
Trabalho delicado, esse, só sabido
por poucos dos mais hábeis artesãos

velhos amigos

Fatigadas pelo tempo, regressaram as águas
e houve muitos beijos e gritos infantis
quando as nossas saudades, seguradas
explodiram em luzes e cantares e danças

02/04/2005

alimentos

Das flores as pétalas mais frescas
são para comer - e só depois as nuvens:
Amor e poesia não são actos
simultâneos

húmido

E disseram as sombras, disseram e
estavam molhadas:
A quem dar estas águas, sequiosas de sol?

da verdade

A minha verdade é uma laranja verde
da cor dos teus olhos e da tua idade
tem a forma dos astros, cheira como as ervas
e sabe demais ao teu sabor amargo.

dos sonhos

Era tempo de estio, sonharam com aves
e foram aos montes procurar por asas.
Não é sabido se também voaram
ou se as águias os colheram nos ninhos
para alimento dos recém nascidos.
Porém, nunca mais voltaram.

cegueira

Atravessaste os escolhos
e cegaste; os teus olhos,
lá ficaram, encantados.

nocturno

O rio,
chapinha em ondas
penúmbricas
e mornas
A lua,
ilumina a fosco
contornos
indistintos
Há uma gaivota nocturna,
passando,
num voo lento
de sono
Algures,
uma guitarra antiga,
traz a saudade,
no vento
melancólico.

ego

Satélite na essência,
e ainda assim concêntrico:
Tenho sede.

28/03/2005

ser gente

Por muito que anseies
pelo porto de abrigo,
sabes que é ao largo do mar,
no centro da tempestade,
que atinges o teu tamanho.
Para além do medo do que é incerto
e do medo de não seres capaz,
estão as vagas vencidas pelo teimar,
está a rota por onde cresces,
em direcção ao norte,
a caminho do sol,
ou de ser gente.

27/03/2005

festa

Mão macia
longos dedos
carícia líquida
de ave. Arremedos
de potro
na teta esguia
recta oblíqua
de segredos
um beijo. Outro

beber do charco

Não queres beber senão água limpa,
não a há onde tu estás: embora.
Bebe mesmo do charco,
agonia-te, sim,mas mata a sede: tu
não podes morrer enquanto for de noite, enquanto
o mundo não for mais que filhos teus.

20/03/2005

voo

Voo
Voo diáfano e suave nas
curvas do vento morno
Nuvem branca
Voo na nuvem branca

no céu
Olhar
o ar, olhar
o infinito azul
Voar, isto é:
Voar mesmo e totalmente,
ser a nuvem, o vento, o voo.
Tudo.

flores

O seu riso
e as palavras,
era a elas
que cheiravam

maresia

Maresia nas areias
soltas
a amanhecer.
Ventania nas ideias
toscas
a reacender.
Acalmia pelas veias
loucas
a empurecer.
Maresia pelo dia
que por pouco
não nascia.

16/03/2005

redenção

Sobe, vai subindo,
até à luz;
deita a alma no corpo
lança o corpo na rocha,
arranha-te, esgota-te,
sobe a escarpa:
Sabes que há uma dor escondida
nas encostas do ser
que só pode sorrir
quando o suor e quando as lágrimas
enfim se confundirem.

21/02/2005

do sol

Falemos do sol
De um raio apenas, transmitido
da antena de um caracol velho
à toca de um grilo.
Ou desta cor grande a encher o mundo
a causa da volúpia das searas.
Falemos do sol na planície como num colo
no monte como num seio - ou num mamilo
Falemos do sol como se amanhã fosse,
o meio do meio ano noite dos pólos

09/02/2005

do corpo

Com mundo se ocupa mundo,
o ar com asas e com as mãos a terra;
ao corpo é reservado navegar.

04/02/2005

a flor na boca

Abocanhar a terra,
molhada do orvalho da manhã;
mordê-la, triturá-la nos dentes
até à dor.
esperar pacientemente a Primavera
e sorrir à flor
que nascerá na boca

02/02/2005

as mãos juntas

As mãos juntas, como se bebesses
tomas as palavras outra vez na boca;
viáveis todos os sentidos,
todos os sons importam,
enquanto as limpas das vulgaridades
que traziam da rua;
depois a boca aberta
passa-tas à mão e então brilhas:
Intenso e comedido vais criando
algumas frases belas com
palavras simples

31/01/2005

Deixa lá o título

Criei um blog. Devia ser um acontecimento especial? Bem criei-o, devo usá-lo bem, mesmo que duvide que alguém, algum dia, o leia.
Porém,ninguém escreve propositadamente para a gaveta. Seria a negação do acto de comunicar que é escrever.
Há sempre a esperança de tocar alguém, quiçá, de transmitir a semente de um fruto por vezes amargo, por vezes doce, mas que faz de quem o cria um pouco mais pessoa