09/10/2006

a forma do teu nome

Importa muito a dimensão do sonho
à dimensão do homem, mas é
nos dentes cerrados na vontade
de o saber e é no braço dolorido
de o forçar a se manter e é no sangue
rubro da paixão de conquistá-lo,
que podes no futuro contar histórias
de como o sonho quase nunca se alcançava
e mesmo assim o ar que respiravas
bordava a fogo a forma do teu nome

13/09/2006

dos cavalos

Vêm na alva os cavalos luminosos
pedir-te adoração,pois que são deuses.
Olham-te nos olhos do passado sem
memória, amam-te no salto do agora
que é todo o seu futuro. Olham-te e
amam-te, os teus cavalos livres. Na
pedra de um altar virado aos astros
tu e os deuses falam do galope
das almas dos cavalos e dos homens

05/09/2006

outros olhos

Há outros olhos,
sabes que há outros
olhos e hás-de procurá-los
sempre na combustão dos
astros, ou nos botões
das rosas. até à última
chama ou á primeira
pétala

04/09/2006

aí estás

Aí estás
simples como as ervas, leve como
o pó que levam os teus passos
no caminho

Aí estás
os olhos outra vez sentados
no difícil miradouro das almas
procurando a luz de cada uma
e em cada luz a tua luz
entrelaçada

Aí estás
e os gestos e as palavras de amanhã
esperam contigo o arfar breve
do Outono na folhagem das árvores
de Setembro

19/07/2006

mais verão

Chove. Mas é mais verão
no cheiro quente da terra.
De joelhos na turfa, beijas
o vapor da volúpia. A saia
molhada da tarde diz
que estão prontas
as espáduas das searas

vida real

Camões de espada ao
peito, Bocage rufião e tu,
Eugénio, voando o que não
sonham as pessoas que te
pensam sonhador

outra noite

Como pode a noite ser,
no lugar onde te encontras,
outra coisa que não noite ?
E beijando a sua sombra
com candeias de luz forte,
como pode anoitecer ?

13/07/2006

outro português

Sardinha no pão, caneca de vinho,
batatas com pele, azeite e
vinagre,um dia de verão
e salada de alface

português

As cigarras não são fáceis de
explicar; explicar as oliveiras
impensável. Porque choras
quando Amália canta o fado
nem tu sabes muito bem

22/06/2006

saudades da tristeza

Agora tudo é triste no teu mundo
e não há mundo que te mude o sentimento;
nada vês além das lágrimas, nem o ombro
onde choras, nem as mãos beijando-te
os cabelos, nem os dedos pacientes
sorrindo nos teus olhos magoados.

Há-de ser noutro dia que a saudade
de estar triste vai brilhar na tua face

19/06/2006

à sombra dos cavalos

Chegam notícias tristes da cidade,
tristes como soem desejar-se.
Teus dedos estancam, perdem viço
os movimentos, mas falta o tempo
para entristecer: de volta à brincadeira
renascem gargalhadas na garganta e
deixas-te outra vez levar, os braços
largos, um grande peito aberto,
tu e as ervas, à sombra do cavalos
um filho no pescoço, outro no colo

coração alado

Abrir as asas na curva da montanha,
ver do ar a pouca dimensão do homem,
mas ver que o homem voa quando quer.
Olhar ao lado outros seres voando
em rotas paralelas, divergentes, ou
contrárias: sorrir um toque de asa
a um irmão chegado e dar o corpo
ao vento, fremir no voo, sentir
no peito o coração alado, o
prenúncio etéreo de um começo astral

02/06/2006

o lugar dos signos

Há um lugar escondido na cidade
onde alguns seres revelam os seus signos;
vêm na alva, procuram toda a gente,
entram no dia, dizem os seus fados,
hora por hora esperam-se na tarde,
insistem no crepúsculo em chamar,
e vão-se embora à noite,
anoitecidos

31/05/2006

a luz do olhar

Na condição de ter uma luz sua
e de salgar a fonte do voar
nem o sol lhe despe a maresia
nem o mar lhe rouba o brilho
do olhar

30/05/2006

o homem de papel

Acorda de manhã,
o homem de papel,
de papel branco,
em branco respirar

sonha em caminhar,
o homem de papel,
de papel branco,
vincado de sinais

mas como não tem cor,
o homem de papel,
de papel branco,
marca de branco o ar

18/05/2006

campo pequeno

Os golpes das espadas
farpeadas
nas espáduas do boi
inocente.
O aço crú cravado
na carne, a ferida
injusta, fresca,
rasgada, o sofrimento
vão.
O ardor da carne,
nas chagas todas
inocentes...
O sangue. O sangue
quente, o sangue
puro, o sagrado
sangue
imolado à multidão
sôfrega.
A arte, claro,
os artistas
da morte

10/05/2006

da vontade da luz

São de festa os seus gestos corpo
adentro e há cantigas que só soam
quando a dois. No despontar do Verão,
brincam palavras com palavras enleadas
na vontade da luz em se florir

03/05/2006

recomeço

Começar de novo não
é difícil, difícil é
recomeçar

02/05/2006

força

O peso do mundo nos ombros,
aceita-o agora, só por um momento.
Por um instante sente-te sozinho,
deixa que doa, lamenta
teres caído. E agora basta:
deixa o suspiro a meio, engole
o cuspo seco. Levanta-te e anda,
perdoa-te e volta ao caminho.
Vê o que vales: não é fraco quem
fraqueja mas quem
fica no chão.

19/04/2006

lembrança

Dos corpos só restara uma lembrança
diluída em brumas espectrais;
parecia de sede, talvez fosse de gestos
mas era tão amena que a julgaram irreal